O Egípcio voador
Por Matheus Laboissière
A história de Mustafá Kamel Mansour começa em 2 de agosto de 1914, em Cairo. Em entrevista concedida à BBC, em 2002, com 87 anos, Mansour disse, quando criança, foi forçado a jogar futebol.
“Havia dois times preparados para jogar uma partida no jardim de infância e um deles não tinha goleiro. O professor me disse para jogar no gol e acredito que me saí bem, tanto que fui eleito o goleiro da escola”.
Mas o primeiro passo rumo à relevância que este jovem egípcio conquistou foi no dia 16 de março de 1934.
Então com 20 anos e vestindo a camisa nº 1 do Al-Ahly, clube que já tinha seu reconhecimento, mesmo o Egito ainda sendo uma colônia britânica – o que só mudou em 18 de junho de 1956, com a independência total –, Mansour foi titular nas Eliminatórias da Copa do Mundo de 1934, a ser realizada na Itália.
A Turquia faria parte do Grupo 12 – Ásia/África –, junto de Egito e Palestina/Israel, mas desistiu da competição, deixando o caminho dos africanos mais fácil. Mansour estreou naquele dia 16 de março, mas levando um gol, diante de 13.000 pessoas, em pleno campo do exército, em Cairo.
Porém, o ataque egípcio foi mais poderoso, marcando sete vezes e praticamente garantindo a primeira classificação de uma seleção africana para a Copa do Mundo, o que só voltaria a acontecer em 1970, com Egito e Marrocos disputando a edição do México.
Na partida de volta, em Tel Aviv, Mansour não esteve presente, mas nova vitória de 4×1 garantiu sua vaga de titular na Copa do Mundo da Itália.
Aventura única
Na segunda Copa da história, Mansour ainda tinha um longo caminho a percorrer. Falando à BBC, o jovem egípcio passou quatro dias num navio, chamado Helwan, rumo a Napoli, local da partida diante da Hungria, o primeiro jogo daquela competição.
Contra os húngaros, dia 27 de maio, o Egito marcou duas vezes, com o meia Abdulrahman Fawzi (31 e 39 do 1º), empatando a partida, mas Mansour não foi capaz de frear o poderio de Pal Teleki (11 do 1º), Geza Toldi (27 do 1º), Jeno Vincze (8 do 2º) e novamente Geza Toldi (16 do 2º).
Mansour disse a BBC que o Egito merecia ter vencido e que o árbitro daquele jogo, o italiano Rinaldo Barlassina, garfou os africanos.
“Quando a partida estava 2×2, meu companheiro Fawzi (que já havia feito dois gols) carregou a bola desde o meio-de-campo, driblando todos os húngaros, mas o árbitro marcou impedimento e invalidou o lance”.
Mansour ainda reclamou do quarto gol adversário, quando o atacante europeu atingiu-o no queixo com os joelhos, além de quebrar seu nariz com o cotovelo depois de empurrá-lo para dentro do gol.
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“Todos os jornais italianos criticaram o árbitro no dia seguinte e admitiram que ele deu aos húngaros o passaporte para a próxima fase”, reclama Mansour em entrevista a BBC.
Mas o fato é que está anotado na história a vitória da Hungria, que cairia na fase seguinte, diante da Áustria.
Europa
A carreira de goleiro não estava perdida com a eliminação. Pelo contrário. Ele ainda participou dos jogos de futebol das Olimpíadas de Berlim, em 1936. Porém, o Egito ficou na 15ª e penúltima posição, à frente da Finlândia.
A estada de Mansour na Europa não se ateve à Alemanha. O goleiro despertou a atenção do técnico escocês James McRea, comandante do Egito na Copa do Mundo de 1934, que o levou para estudar educação física no Jordan Hill Training College, na Escócia.
Enquanto estudava, foi-lhe oferecida vaga de goleiro no Queens Park, clube mais antigo da Escócia, fundado em 9 de julho de 1867, clube no qual permaneceu de 1937 até 1939, tornando-se o primeiro atleta de fora da Inglaterra e da Irlanda a jogar na Liga Escocesa.
Um fato curioso é que o clube queria lhe pagar 5.000 libras, soma inimaginável àquela época, o que ele não aceitou, pois não jogava por dinheiro.
Durante sua passagem por terras escocesas, Mansour jogou perto de 50 partidas como titular pela liga nacional e oito jogos da Copa do país. Na temporada 1938-39, o Queens Park acabou ficando em 19º, a penúltima posição, dentro da zona do rebaixamento. Mas foi salvo pela ocorrência da Segunda Grande Guerra Mundial, que resultou na suspensão do rebaixamento.
Ajuda à África
Em 1939, o egípcio voltou ao país natal, por causa da guerra. Por lá, foi secretário-geral da recém fundada Confederação Africana de Futebol, entre 1958 e 1961, além de técnico e árbitro. No governo egípcio, foi ministro.
Mustafá Kamel Mansour faleceu em 24 de julho de 2002, aos 87 anos, mas foi um dos pioneiros do futebol egípcio no mundo do futebol e deixou sua marca registrada na história do país africano e, porque não, das Copas do Mundo.
Crédito fotos: BBC Sport Online Cairo




