O brazuka do Baku
Por Matheus Laboissière
Nome: Filipe José Machado
Data de nascimento: 13/03/1984
Posição: zagueiro/lateral-esquerdo
Clubes: base Inter-RS, Cachoeira-RS, Fluminense, Esportivo-RS, Pontevedra-ESP, CSKA Sófia-BUL, Salernitana-ITA e Inter Baku (atual).
Da difícil adaptação às quadras até a possibilidade de se naturalizar búlgaro, muita coisa ocorreu na carreira de Filipe Machado, boas e ruins.
Nesta entrevista exclusiva ao Plano Tático, o lateral-esquerdo fala do início, da chance perdida no Fluminense e na empreitada europeia, tendo passado por quatro países bem diferentes entre si.
Primeiros anos
Você teve uma formação bastante ligada ao futsal. De que forma as quadras o ajudaram no futebol de campo?
O futsal me ajudou muito na questão técnica e na forma rápida de pensar os lances. Consegui adaptar estas duas características ao campo.
Sua mãe, pelo menos inicialmente, não gostou nada da ideia de você jogar futebol, por causa dos estudos (você chegou a parar com o futsal, certo?). Como conseguiu convencê-la e voltar ao esporte, com 13 anos? Como foi o apoio da família, em geral, quando disse que queria seguir carreira?
Sim, eu parei com o futsal devido às notas ruins no colégio. Depois que melhorei meu desempenho, voltei a jogar. Minha família me apoiou no início, mas, pra seguir jogando, eu sempre teria que ter boas notas, era um acordo que tinha feito com minha mãe, que sempre exigiu isso. Hoje, dou muito valor à persistência de minha mãe com os estudos, pois a carreira de jogador é curta e precisamos saber investir o dinheiro e não nos deixarmos ser enganados por pessoas ligadas ao mundo do futebol.
Internacional-RS
Quem o levou para o Inter, quando tinha apenas 13 anos? O que você sentiu quando apareceu a oportunidade de migrar para o futebol de campo? Você tinha vontade de seguir no futsal ou já pensava em fazer algum teste nos campos?
Meu pai foi quem me levou para fazer um teste e eu tinha um pouco de medo, pois só jogava futsal. Para ser sincero, não me passava pela cabeça jogar futebol de campo, pois eu gostava do futsal. Mas meu pai me perguntou se queria fazer o teste e acabei aceitando, pois estava de férias no futsal e na escola.
Lembro-me de que, quando fui fazer, o teste o treinador me perguntou que posição eu jogava, mas eu nem sabia onde poderia jogar. O treinador me olhou e disse que iria fazer um teste de atacante ala-esquerda (antigo ponta esquerda), pois ele precisava de um jogador nessa posição.
Como foi sua adaptação ao futebol de campo? Quais as dificuldades que encontrou?
Minha adaptação foi um pouco difícil, pois após o treinador ter dito que ficaria no time, eu teria que ter paciência diante da nova maneira de jogar. Fiquei seis meses só treinando e sem ter chance de participar. Minha maior dificuldade era quanto ao posicionamento, eu ficava perdido em campo.
Inicialmente, você começou como atacante, mudando, tempos depois, para lateral-esquerdo, por sugestão do técnico Julio Camargo. Na época, você concordou com ele?
Acabei indo para lateral esquerda por acaso. Havia dois laterais-esquerdo e ambos se machucaram e não tinha outra opção. O Julinho (Julio Camargo) veio falar comigo se poderia fazer aquela função. Eu aceitei e acabei fazendo um grande jogo e, depois disso, não saí mais do time.
Gostaria de que falasse como foi trabalhar, aos 16 anos, com o treinador Mano Menezes (em 2002, no Esportivo-RS), atual comandante da seleção brasileira. Ele demonstrava qualidade desde então? O jeitão dele na época é o mesmo de hoje?
Trabalhar com o Mano foi muito importante em minha formação. Ele me apoiou muito, mas pegava bastante no meu pé (risos). Cresci na minha carreira com o Mano. Ele era um fenômeno e hoje o vejo no futebol de alto nível e enxergo a mesma pessoa de anos atrás, o mesmo jeitão de trabalhar e falar. Vou torcer muito por ele na seleção, pela pessoa que é e pelo profissional que provou ser.
Cachoeira-RS
Em quê você evoluiu, que tipo de experiência adquiriu, ao ser emprestado para o modesto Cachoeira, da 2ª Divisão Gaúcha?
Dou muito valor a minha passagem pelo Cachoeira. Estava cansado de estar nos juniores do Inter-RS e sem oportunidade de ir para os profissionais e pedi para ser emprestado a fim de jogar profissionalmente.
Eu ainda não tinha experiência e foi tudo muito novo pra mim. Lá, não tinha a mordomia de um clube grande, era tudo muito simples. Dentro de campo, adquiri muita experiência, malandragem, pois a Segunda Divisão do Campeonato Gaúcho é bem competitiva. Acabei fazendo um excelente campeonato, tanto que um olheiro do Fluminense me viu em uma partida e acabaram me contratando.
Fluminense-RJ
Destaque alguns de seus companheiros (inclusive comissão técnica) que jogaram/trabalharam com você no Fluminense. O que pôde aprender com eles?
Tive o prazer de jogar com Romário e Edmundo, dois jogadores espetaculares e trabalhei apenas um mês com Ricardo Gomes que, apesar do pouco tempo, me pareceu um treinador muito bom.
Porque você ficou apenas seis meses no clube carioca? O que houve?
Minha passagem pelo Fluminense foi um pouco complicada. Quando cheguei, tive algumas oportunidades e fiz bons jogos, mas acabei fazendo algumas besteiras e deixei subir à cabeça. Não estava preparado para viver aquele momento e, quando acabou meu empréstimo, o Fluminense não renovou com o Internacional.
Dupla nacionalidade e Europa
Como conseguiu a dupla cidadania italiana? Em sua opinião, o jogador brasileiro precisa da cidadania europeia se quiser jogar em grandes clubes da Europa?
Meu bisavô era Italiano e acabei adquirindo o passaporte. Todo país tem um limite de estrangeiros para jogar. Caso o clube ultrapasse esse limite, só poderá jogar quem tem passaporte europeu. Mas, com certeza, o fato de um bom jogador não ter passaporte não impediria o clube de contratá-lo.
Na Europa, você passou por Charleroi-BEL, Chievo-ITA, Pontevedra-ESP, CSKA Sófia-BUL, Salernitana-ITA e Inter Baku-AZE (no Albacete, você jogou?). Em qual destes times percebeu que sua carreira na Europa poderia de fato deslanchar?
No Chievo e no CSKA, pois são clubes de ponta na Europa. Sobre o Albacete, eu não joguei e nem acertei contrato, apenas conversei com os diretores do clube, mas não chegamos a um acordo.
Com quais jogadores que fez amizade, mantém contato durante sua estada na Europa?
No Chievo, fiz amizade com o Amauri, mas acabei perdendo seu contato. No CSKA, joguei com muitos jogadores das seleções búlgara e romena, que são famosos em seus países. Na Salernitana, estive com dois jogadores que não conhecia quando cheguei, mas acabei sabendo de suas historias e vi que são muitos respeitados pelos clubes que jogaram: Montevino, capitão do Napoli por seis anos e Francesco Cozza, por sete anos capitão da Reggina e que ainda jogou na seleção italiana e no Milan.
Qual o campeonatos mais importante você disputou na Europa? Quais títulos possui na carreira?
O campeonato mais importante que joguei foi a Copa da UEFA (atual Liga da Europa). Fui campeão búlgaro, campeão da Taça da Bulgária, super campeão da Bulgária e campeão do Azerbaijão.
Qual o gol mais importante, em sua opinião, que você marcou?
Fiz o gol do titulo búlgaro no clássico contra o Levski Sófia, que me marcou muito, pois saímos campões em 2008 e a rivalidade entre CSKA e Levski é muito grande no país.
Inter Baku
Como é, em termos de estrutura, jogar num dos maiores clubes de um país que está longe do futebol de ponta, em comparação com os que você defendeu, inclusive os brasileiros?
A estrutura é muito boa, não falta nada aos jogadores. Temos tudo aqui, é um campeonato bem competitivo, tem excelentes jogadores e clubes muito fortes.
O que espera em sua passagem pelo Inter Baku?
Espero conquistar mais títulos e buscar minha independência financeira.
Há jogadores brasileiros no elenco do Inter Baku? Se sim, de que maneira eles o ajudaram a se adaptar à cultura do país?
Sim, tem mais dois jogadores, o zagueiro Accioly (ex-Bahia e ABC), e o meia Mario Souza. Eles me ajudaram bastante, pois o Azerbaijão é um país que tem muitas leis e muita coisa que fazemos na Europa aqui não pode. Ajudaram-me a procurar uma casa, em bairros bons, me mostraram os restaurantes para estrangeiros.
Quais as maiores dificuldades que você está encontrando num país em que a língua oficial (azeri) tem a grafia diferente da nossa?
A minha maior dificuldade foi a adaptação de minha esposa. Pois, para mim, as coisas são mais fáceis, estou sempre com companheiros no clube e ela se sente mais sozinha e quando ela sai, tem dificuldades na comunicação.
Como você faz para falar com os companheiros que, geralmente, são de outras nacionalidades (Geórgia, Letônia, Estônia, Lituânia, República Checa)?
Comunico-me com eles em inglês ou russo, que falo porque joguei dois anos na Bulgária e aprendi o búlgaro, que é bem parecido com o russo.
O Inter Baku tem uma parceria com o Milan-ITA. Você aceitou a proposta do clube pensando numa futura transferência?
A parceria que o clube tem com Milan é apenas para os jogadores da categoria de base.
Seleção
Em 2008, foi falado na Bulgária que você poderia se naturalizar búlgaro e defender a seleção nacional? Porque a possibilidade não aconteceu?
Sim, eu iria me naturalizar. Meu presidente (do CSKA Sófia) na época me chamou e disse que o treinador da seleção Plamen Markov, tinha interesse em me naturalizar e eu acabei aceitando. Mas, algum tempo depois, ele acabou saindo devido ao mal resultado contra a Sérvia (derrota de 6×1, em amistoso, na Sérvia, em 19 de novembro de 2008). Com a saída dele, não se falou mais na minha ida para a seleção.
Conte sobre o seu encontro com o maior craque da história futebolística búlgara: Hristo Stoichkov. O que ele lhe falou?
Conversamos no aniversário do CSKA, ele é um cara fantástico. Falamos sobre o momento do clube, disse a ele que o admirava quando jogava e ele disse que também gostava de me ver em campo (risos). Ele é um cara muito engraçado, sempre brincando. Disse que, se não ganhássemos o campeonato, era melhor eu passar as férias no Brasil. Ate jogamos um jogo festivo no estádio do CSKA.
Caso houvesse um convite da Federação de Futebol do Azerbaijão para se naturalizar, como reagiria?
Olha, não posso dizer que aceitaria. Preciso, antes, saber do real interesse do país, pois não iria me naturalizar apenas para pegar o passaporte azeri, teria que ter um objetivo, como houve na Bulgária.
Lances da carreira de Filipe Machado
Crédito fotos: arquivo pessoal









