A difícil jornada de um brasileiro de perseverança
Por Matheus Laboissière
Nome: Adriano Gonçalves Cassab Pires
Data de nascimento: 15/01/1985
Posição: lateral direito/ esquerdo e meia ofensivo
Carreira (inclusive divisões de base): Pequeninos do Jockey -Joana D’arc, Mogi EC – Futsal, Portuguesa de Desportos e Coritiba-PR (base). ECUS-SP, AD Guarulhos-SP, XV de Novembro de Caraguatatuba-SP (atualmente licenciado), Bragantino-SP, União Mogi-SP, FC Vorwärts Drögeheide-ALE e TSV Greif-ALE.
Adriano Cassab tem relação com o futebol desde criança. O menino de Mogi das Cruzes que mal sabia falar “bolinha” tem a força necessária àqueles que percorrem seus sonhos.
Nesta entrevista exclusiva ao Plano Tático, Cassab fala das dificuldades pelas quais passou e que quase interromperam sua carreira precocemente. Porém, o menino de Mogi foi em frente e ainda quer muito mais.
Divisões de base
Como foi sua relação com o futebol desde pequeno?
Nascido em São Paulo, me mudei para Mogi das Cruzes (meu pai foi transferido pra lá) e comecei a jogar futebol, aos oito anos de idade.
Como todo garoto, tinha o sonho de ser jogador e um dia poder defender o São Paulo. Quando pequeno, dormia com a bola. Aniversário, natal, dia das crianças, todas as datas eram motivo para pedir uma bola de presente. Minha mãe conta que, quando pequeno, eu só comia coisas que tivessem o formato de “boinha”. Detalhe: eu não conseguia falar bolinha (risos).
O Início
Comecei no colégio onde estudava (Placidina), no futsal, em Mogi das Cruzes. Fui campeão de torneios internos e entre escolas da região. Conheci pessoas ligadas ao futebol e logo estava jogando numa escolinha chamada Spazio, cujo treinador, Haroldo, atualmente é o preparador de goleiros de Rogério Ceni, do São Paulo.
Ele era o treinador de goleiros do Pequeninos do Jockey, em Mogi , e para lá eu fui em 1998, aos 13 anos de idade. Participei de uma peneira do Corinthians e fui convidado pelo Pequeninos para treinar.
Em 1999, ainda jogava futsal, era meu último ano no Placidina e fiquei sabendo que teria uma peneira no Mogi FC, time da região que jogava os campeonatos paulistas e estaduais de futsal.
Decidi fazer o teste e fui aprovado. Nessa época, eu estudava de manhã, treinava no Pequeninos à tarde e, à noite, treinava futsal no Mogi. Tive essa rotina até 2001, quando troquei o Pequeninos pela Portuguesa, já no futebol de campo.
Eu treinava com um grupo e havia um projeto, na época, para jogadores que tinham nacionalidade estrangeira, ou estavam para tirar a cidadania portuguesa. Disputávamos torneios e amistosos e permaneci por um ano, conciliando com o futsal do Mogi, todas as noites.
Foi um período de minha vida bastante complicado. Nos finais de semana, tinha jogo pela Lusa, pelo Mogi FC e ainda pelo time do Colégio Objetivo, onde também estudava. Cheguei a viajar no mesmo dia para três cidades diferentes a fim de jogar.
Em, 2002, tive a oportunidade de defender o Coritiba-PR. Mas as coisas no sul não foram boas para mim. Sem ninguém para me patrocinar, vi a perspectiva de crescimento ir por água abaixo. Não joguei e acabei voltando para Mogi das Cruzes.
Ao chegar lá, o Pequeninos havia feito uma parceria com o ECUS e jogariam o Campeonato Paulista sub-17. Participei da competição com a nova equipe e fui campeão do Sul America de 2002, ano em que ainda jogava futsal pelo Mogi FC. Foi nesse momento que deixei o futsal e me dediquei apenas ao campo, aos 17 anos.
Pelo ECUS, chegou a jogar a Copa São Paulo de Juniores?
Saí no final do ano e não participei da Copa São Paulo.
Você trabalhou com algum técnico que hoje é conhecido? Em caso positivo, o que pôde aprender com ele?
Com o Haroldo, não aprendi exatamente com ele, mas por meio de suas atitudes. Pude perceber que o mundo dá voltas, um dia você está por baixo e no outro, pode estar por cima. Que você não pode menosprezar ninguém e apenas fazer seu trabalho. Uma hora, em algum lugar, alguém irá te observar e lhe oferecer uma oportunidade. E você deve estar preparado.
Tive diversos aprendizados com técnicos com os quais trabalhei. O Douglas, pai do meia Wendel – passou pelo Corinthians e seleção sub-17, hoje no Santo André -, me mostrou como ser um jogador profissional com cabeça, e não um boleiro.
O técnico Mauro de Oliveira, que descobriu e investiu no atacante Cacau, que é de Mogi Mirim e esteve no Pequeninos e no Jockey -Joana D’arc, hoje na seleção alemã, sempre me apoiou nas dificuldades, fazendo com que eu seguisse em frente e não desistisse.
Outros professores, como Acrísio, Marcão (Mogi FC) e Alberto (Placidina) foram meus amigos, mas eram rígidos quando necessário. Com o professor Alberto, tive meu melhor momento na carreira. Era bom entrar no vestiário e ver que ele acreditava em mim. Não sentia pressão e por isso joguei os melhores jogos da minha vida, pois atuava por prazer.
Outro que foi muito importante em minha carreira foi Edmilson de Jesus (União Mogi). Em 2008, não me deu nenhuma oportunidade na Série A3, não gostava de mim ou não tinha interesse por eu não ter ninguém que me sustentasse no clube.
Porém, fui guerreiro, mantive a cabeça erguida e continuei treinando cada vez mais e que um dia, aquela situação, a pior que já atravessei, ia passar. E, mesmo tendo entrado apenas três vezes em campo, por uns cinco, dez minutos, despertei o interesse de um empresário, que me trouxe para a Alemanha.
Ninguém entendeu, mas eu percebi que, nas piores fases é que o ser humano deve buscar forças para reagir. Queria agradecer ao Edmilson por ter sido tão ruim comigo. Foi seu menosprezo que me fez buscar e acreditar em algo melhor.
Carreira Profissional
Como surgiu o contato para o primeiro contrato profissional, no AD. Guarulhos? Quem o apresentou?
Em 2004, participei de testes no AD Guarulhos por meio de indicação de um amigo. Conheci o treinador Marquinhos e assinei meu primeiro contrato profissional No início, fiquei na reserva da Série B (2ª Divisão de SP) e terminei atuando como titular, numa nova posição: lateral direito.
Saudações ao Seu Tassi, presidente na época que me mostrou que no futebol ainda existem pessoas boas e honestas.
Você esteve no Bragantino-SP, em 2005, quando o clube disputava a Série A2 do Paulistão. Você participou da campanha do acesso? Quantas partidas jogou?
O mesmo treinador, Marquinhos, assumiu a posição de diretor de futebol em 2005, no Bragantino. Em Bragança Paulista permaneci por três meses. Tinha 19 anos e, com a chegada de vários atletas mais experientes, não obtive muitas oportunidades e resolvi sair. Treinava com o profissional, sob o comando de Marcelo Veiga (atualmente no próprio Bragantino).
A virada
Como foi a passagem pelo interior de Goiás, em Jussara, cidade de 20.000 habitantes?
Em 2006, cheguei ao Tupy-GO, onde fiquei por aproximadamente dois meses. Quando começou a pré-temporada, meu irmão, Leandro Cassab, teve de fazer uma cirurgia de coração, em São Paulo.
Estava fisicamente em Goiás, mas a preocupação com o meu irmão não me deixava concentrar. Como as condições financeiras e a perspectiva no clube não eram boas, decidi voltar para São Paulo e passar o resto do ano ao lado de meu irmão, apoiando-o em sua recuperação.
Porém, ele veio a falecer em 28 de dezembro de 2006. Fiquei literalmente perdido, larguei tudo, desisti do futebol, perdi o rumo. Sem jogar, estudar, trabalhar, para mim o mundo desabou.
Numa noite, sonhei que irmão me pedia para voltar a treinar e a jogar e que Deus tinha algo muito melhor pra mim. Era esse sonho que me fazia lutar tanto em 2008 na fase da A3.
Meu irmão era meu maior incentivador e todas as vezes em que eu pensava na possibilidade de estudar e seguir outro rumo, era ele quem sempre me fazia seguir no futebol, me dava forças.
Graças a esse sonho, voltei a treinar e assinei um contrato com o União Mogi para a Copa Federação Paulista de 2007.
União Mogi
Como foi começar a carreira no futsal do Mogi E.C. e voltar à sua cidade natal, para defender o União Mogi? Considera que foi um retrocesso? Por quê?
Em 2008, a imprensa não entendi o porquê de eu estar jogando mal e não ter oportunidades, já que era o único atleta da cidade no elenco. Ali, as coisas eram feitas de forma errada, comum nos clubes brasileiros, mas não quero me aprofundar nisso.
Não considero um retrocesso ter voltado a minha cidade, pois foi lá, no União Mogi, que dei o passo rumo à Europa.
Há alguma estória engraçada que ocorreu com você pelos clubes da Série A3 Paulista que deseja contar?
(risos). Acredito que quando menor a divisão, mais estórias engraçadas acontecem. Digo que dá para escrever um livro, mas essas eu vou deixar para o meu livro, quando encerrar a carreira.
Como era o estado dos gramados nos jogos em que participou?
Na 4ª Divisão de SP e na A3, terríveis, assim como o do XV de Caraguá. Joguei em muitos gramados ruins, mas na Alemanha é diferente só “tapete”.
Em 2007, o União Mogi quase se classificou à 2ª fase. No ano seguinte, ficou no meio da tabela. O que, em sua opinião, aconteceu para a queda de rendimento no campeonato?
O União Mogi não é visto com bons olhos por todos na cidade. Nos últimos anos, as pessoas que passaram pelo clube deixaram uma má fama e fizeram um péssimo trabalho. Ninguém coloca um real no clube porque todos que fizeram isso, no passado, foram enganados.
Quando estava lá, o presidente era o Dr. Delmiro, pessoas simples, lutador, trabalhador. Mas era difícil reverter, sozinho, a opinião de toda uma cidade. Alguns apoiavam, mas a maioria, a prefeitura, não davam nada. Uma pena, pois Mogi das Cruzes poderia ter um time na divisão de elite do futebol brasileiro. Tenho a esperança de um dia poder ajudar a reverter essa situação em Mogi.
Alemanha
Você está no FC Vorwärts Drögeheide desde 2008, certo? Como o clube o descobriu? Como foi o contato para jogar num clube da 6ª Divisão da Alemanha?
Com o final do contrato pelo União Mogi, acabei liberado. Com o passaporte português nas mãos, as coisas foram mais fáceis. Um empresário de Blumenau-SC se interessou após ver meus vídeos e me trouxe para cá, onde assinei contrato e estou há dois anos.
Jogamos a Verbandsliga Norte e este ano houve uma fusão com um clube da Oberliga Nörd. Agora ele se chama Torgelower SV Greif II e está na Verbandsliga Mecklenburg-Vorpommern, na 6ª Divisão.
Não renovei meu contrato, pois a fusão não é interessante para mim. Houve redução de salários, corte de despesas. Aqui é ex- Alemanha Oriental, região complicada, não há perspectiva de crescimento no futebol, não existem grandes cidades, clubes fortes por aqui. O jogador acaba esquecido e por isso minha decisão de sair, o que ainda não aconteceu.
Qualidade de vida
Como é o dia-a-dia no TSV Greif II? Como é a estrutura?
Sem comparação com os clubes brasileiros. Aqui, o clube supre todas as necessidades do atleta, eles se preocupam com o bem-estar e vida do atleta fora do campo, dão toda a estrutura necessária: alimentação, dinheiro gastos deixam a cabeça do jogador livre pra fazer o que ele sabe de melhor, que é jogar.
Salários são depositados até antes da data certa de pagamento, não preciso dizer mais nada, né? Aqui as coisas funcionam. No Brasil joguei muito e alguns clubes não me pagaram até hoje.
Há brasileiros no elenco do Greif II?
Quando cheguei, estavam aqui o Adriano Siewerdt e o Marcelo Bubllitz. Depois de seis meses, chegou o Luiz Miguel.
Hoje, nenhum deles está por aqui. Os dois primeiros por não terem cidadania europeia. O Luiz Miguel quebrou a perna, a fíbula e a tíbia e ficou um ano sem jogar. Em junho último, com o final do contrato, decidiu sair em busca de algo melhor. Mas será meu amigo para sempre.
Como são realizados os treinamentos? Tem hora marcada?
Podemos treinar na academia por conta própria e temos treino de segunda à quinta-feira no período da tarde. Descansamos na sexta e jogamos no sábado.
Como é a presença dos torcedores no estádio?
A cidade tem apenas dez mil habitantes, a região é composta de cidades pequenas, o que interfere na pequena presença. Há fãs, senhores e crianças.
Fora de campo
O que você faz nas horas vagas? Tem algum parente com você na Alemanha?
Estudei alemão em um jardim de infância com uma professora particular, jogamos videogame ou poker na internet, assistimos a filme e a seriados, falamos com parentes e amigos no Brasil.
Jantamos fora, vamos à praia no verão, porque no inverno só é possível treinar e se proteger do frio (risos). É quando o campeonato para e voltamos ao Brasil de férias. Natal, Ano Novo e janeiro ficamos no Brasil.
Fala o alemão fluentemente? Quanto tempo demorou para se acostumar à nova cultura?
Sim, após quase dois anos por aqui. No começo é complicado, a língua é muito difícil, sem muitas regras. Nos três primeiros meses pensei em voltar ao Brasil, mas, aos poucos, as coisas vão melhorando e tudo vai se encaixando.
Ainda é complicado ficar longe de meus pais, pelo fato da morte de meu irmão, pois éramos só nós dois. Sinto falta de meus amigos também, mas tenho sonhos e estou lutando por eles. Acho que vale a pena abrir mão de tudo para segui-los. Aprendi a dar valor a muitas coisas que não dava no Brasil e me tornei, ao longo dos anos, uma pessoa melhor, em todos os aspectos.
Você considera o formato de ligas da Europa, no qual clubes amadores podem chegar às divisões principais diretamente, melhor, ou prefere o sistema brasileiro, em que clubes amadores e profissionais são desvinculados?
Prefiro muito mais o formato europeu, pois os clubes que querem investir ou que pretendem se tornar maiores sabem o caminho a seguir para crescer. Assim, de forma justa e correta, os clubes que vencem crescem. Eu gostaria que no Brasil as categorias menores e os campeonatos amadores fossem regulados como aqui na Europa.
Desabafo
Porque você preferiu tentar a sorte num clube de baixo escalão na Europa? Teve oportunidades em clubes brasileiros?
No Brasil, as coisas são muito complicadas. Há muita “trairagem” e jogo de interesses, o que às vezes deixa jogadores de talento de lado para se dar preferênci a filhos, amigos, primos de pessoas relacionadas ao futebol.
Por isso, vemos hoje em dia cada vez mais jogadores se destacando fora do Brasil e sendo reconhecidos aqui por seu verdadeiro talento e muitas vezes eles nem são conhecidos no país de origem. Como exemplo, meu conterrâneo e amigo Cacau, que disputou a Copa da África do Sul deste ano pela seleção alemã.
Futuro
Quais são seus planos no futebol? Aonde pretende chegar?
Eu sei do meu potencial e quero chegar longe, jogar, realizar uma promessa que fiz ao meu irmão e realizar meus sonhos: poder disputar um campeonato de ponta no Brasil ou na Europa.
Lances de Adriano na Alemanha









Bem, no meu tempo, quando jogava futebol, has coisas eram um pouco deficil, financeiramente
para custear passagens, transportes e alimentação, porem o garoto pobre, tem grandes sonhos na vida!
Mas tambem com ho boletim escolar ruim, atrapalhava um pouco, mas ho nosso Guimarães, generosamente,
deixava jogar! Ho Jockey, sempre precisou de apoio financeiro e apoio da imprensa! Porem Guimarães, trouxe
muitos titulos e soluçoes para jockey!
Pois, merece ho reconhecimento, dos amigos e do Broinha!