Deivid – Encantado com a Turquia, descarta retorno imediato ao Brasil
Por Thomas Renan e Victor Domingos
Deivid de Souza, natural do Rio de Janeiro, se notabilizou atuando em grandes clubes brasileiros como Cruzeiro, Santos e Corinthians. Com passagens européias por Bordeaux, Sporting e Lecce, atualmente é ídolo atuando pelo Fenerbahçe. Pelo clube turco já são mais de 100 jogos, contando com uma recente renovação de contrato até 2012, praticamente descartando um retorno ao futebol brasileiro. Na entrevista exclusiva realizada pelo Plano Tático, o atacante conta sobre o início de carreira, a passagem pelo futebol brasileiro, alguns percalços pelo futebol europeu, além da sua relação com o Fenerbahçe e a Turquia em especial. Agradecemos a acessoria do atacante (http://www.taticaassessoria.com.br ), além da simplicidade e da qualidade de Deivid nas respostas.
Muitos conhecem o Deivid do Santos, do Corinthians e do Fernebahçe mas dificilmente lembram seus dois primeiros clubes como profissional: o Nova Iguaçu e o Joinville. Qual a importância que estes dois clubes representam em sua carreira?
Foram fundamentais, jamais vou esquecer onde tudo começou. No Nova Iguaçu onde o sonho começou a se tornar realidade. Tive a oportunidade e aproveitei. Até hoje tenho carinho muito grande pelo clube e por alguns amigos que ainda estão lá. Inclusive procuro visitar quando estou de férias.
O Joinville, mesmo não estando no grande centro do futebol, foi uma boa vitrine para mim e onde também tive a chance de conhecer pessoas que me ajudaram a dar um alavancada. Tanto que de lá fui para o Santos e o restante da história todos já sabem.
”No Nova Iguaçu onde o sonho começou a se tornar realidade”
No futebol brasileiro você conquistou dois campeonatos nacionais, uma Copa do Brasil, além de torneios estaduais e o Rio-SP. Dentre estes títulos, qual foi o mais importante em sua carreira?
Difícil destacar o mais importante. Se me permite vou citar dois pelo menos. A Copa do Brasil pelo Corinthians porque o professor Parreira (treinador Carlos Alberto parreira) conseguiu formar um excelente conjunto, aquele time ditava o ritmo em qualquer jogo. Mas também porque garantiu uma vaga na Taça Libertadores e ainda terminei como artilheiro da competição com 13 gols.
E o Brasileiro de 2004, porque foi bem disputado até o final, mas no sprint final, digamos assim, conseguimos ultrapassar o Atlético Paranaense e manter a boa seqüência do Peixe na competição, que já vinha do título em 2002 e de um vice em 2003. Ah, e também por um fato inédito na carreira, pois tive oito gols anulados.
”E o Brasileiro de 2004, porque foi bem disputado até o final, mas no sprint final, digamos assim, conseguimos ultrapassar o Atlético Paranaense e manter a boa seqüência do Peixe na competição, que já vinha do título em 2002 e de um vice em 2003.”
Após a passagem vitoriosa pelo Cruzeiro em 2003 no primeiro semestre você se transferiu para o Bordeaux da França. No total pelo clube foram apenas 3 gols. O que pesou para que a sua passagem pelo futebol francês não tenha sido da forma esperada?
Costumo dizer que o jogador para sair do Brasil para jogar em outro mercado tem que estar realmente preparado. Digo isso por que senti isso na pele.
Estar preparado para se adaptar a novos costumes, estilo de jogo diferente, enfim, uma série de coisas que fazem diferença no rendimento em campo. Além de tudo isso, minha esposa estava grávida na época.
Pelo Fenerbahçe já são mais de 100 partidas. Quando você chegou ao clube passou pela sua cabeça que iria atingir uma marca tão importante como esta?
Quando chego em um time o pensamento é sempre de fazer sucesso e conquistar títulos, só assim deixamos o nome gravado na história dos clubes, mas nem sempre as coisas saem como a gente quer.
Felizmente aqui no Fenerbahçe deu tudo certo e sem dúvida que a presença de outros brasileiros no time desde o começo ajudou bastante na adaptação na cidade, ao time…
A temporada passada pelo clube não teve o resultado esperado até pela grandeza do Fenerbahçe na Turquia. Quais são as expectativas para esta nova temporada que está se iniciando?
São as melhores possíveis. Apesar de perder algumas peças importantes como Edu Dracena e Maldonado, por exemplo, a reposição foi boa e o time está no caminho certo. Tanto que no Campeonato Turco já são oito vitórias em oito rodadas e estamos no páreo pela Liga Europa.
O retorno do treinador Cristoph Daum também foi fundamental pois já conhece o clube pela outra passagem que teve por aqui e que foi muito boa também. Com isso tudo só posso esperar o melhor para o restante da temporada.
Qual foi o momento mais especial no clube até o momento?
Como disse, ganhar título é sempre especial e aqui já ganhei o Campeonato Turco, a Supercopa da Turquia. Mas especial mesmo, até por ter sido algo individual, foram os dois gols diante do Chelsea. Primeiro pela dramaticidade da partida e também pela importância da competição. Não tem como explicar a sensação que é poder disputar uma Liga dos Campeões.
Recentemente você renovou o contrato com o Fenerbahçe até 2012. O que pesou para a sua permanência no clube?
A possibilidade de estar mais tempo com a família por causa do número de jogos reduzidos, maior organização, estrutura, são tudo coisas que pesam bastante. Mas também se disser que não pensei no lado financeiro estaria sendo hipócrita. Carreira de jogador é curta e não tem como deixar de pensar por essa lado também.
Esta renovação descarta qualquer possibilidade de retorno ao Brasil até 2012?
Aquela história de nunca dizer nunca. Mas acho complicado os times brasileiros conseguirem se equiparar na parte financeira.
”Acho complicado os times brasileiros conseguirem se equiparar na parte financeira.”
O Fenerbahçe caiu no Grupo H na Liga Europa, que conta com o Twente da Holanda, Steaua Bucareste da Romênia e ainda o Sheriff Tiraspol, da Moldávia. Como você avalia a chave?
Não existe mas bobo e inocente no futebol. Está tudo muito equilibrado e sem dúvida não iremos encontrar facilidade para avançar. Por exemplo, diante do Sheriff passamos apenas por 1 a 0, que teoricamente seria o adversário mais frágil, porém, na pratica é diferente.
A Turquia possui uma forte parte cultural, principalmente ligada a parte religiosa tanto que atualmente 99% da população é mulçumana. Como é a sua convivência e a de sua família no país?
Está ótima minha vida aqui em Istambul. A família está adaptada, meus filhos vão à escola normalmente, podemos sair e passear à vontade. Aliado a isso tudo junta o fato de ter mais segurança, coisa que infelizmente aí ainda fica um pouco a desejar.
Desde a minha chegada até hoje sou muito bem tratado pelo povo turco que é muito caloroso e bem receptivo. O fato do fanatismo deles na religião também não influenciou nada em nossa convivência aqui.
Quem acompanha futebol sabe do fanatismo do povo turco pelo futebol. A paixão dos torcedores com que você convive na Turquia se aproxima do fanatismo brasileiro?
Olha, aqui eles são fanáticos demais. Não tem comparação com o torcedor brasileiro que é maravilhoso e sabe incentivar como ninguém também. Para ter uma ideia, o número de veículos que cobrem os times é muito maior, os clássicos são verdadeiras “batalhas”, tanto que quando sai a tabela os dias dos clássicos já são os mais comentados e aguardados.
Recentemente uma pesquisa classificou o clássico entre Fenerbahçe e Galatasaray como o de maior rivalidade entre todos os campeonatos na Europa, daí você tem uma melhor noção do fanatismo por aqui…
Esse fanatismo do povo turco chegou a atrapalhar sua vida extra-campo alguma vez?
Não, pelo contrário. Aqui eles respeitam bastante a folga do jogador. Claro que atendo a todos, dou autógrafo quando vou num restaurante, passeio com a família, mas se percebe que eles ficam meio reticentes até se aproximarem.
A mistura de futebol e religião caracteriza Fenerbahçe x Galatasaray um dos clássicos mais conhecidos e infelizmente um dos mais violentos do mundo. Você, com experiências em vários duelos locais, considera este jogo o derby mais complicado de se jogar?
Sim. Só estando lá dentro das quatro linhas para saber o quanto é disputado realmente este clássico. Do começo ao fim não tem moleza, além dos incentivos dos torcedores que não param.
O Fenerbahçe é conhecido por sempre ter um considerável número de brasileiros em seu elenco, tanto que recentemente o clube contou com as chegadas de André Santos e Cristian. Como você avalia esta política dos clubes turcos?
Claro que acontece, mas dificilmente eles contratam de maneira equivocada. Sempre trazem os destaques de algum time. Quando não, procuram saber o histórico do atleta a assim por diante. No meu entender é uma política correta. Por exemplo, o Bilica que hoje está aqui no Fener com a gente foi um dos destaques na temporada passada pelo Sivasspor, que surpreendeu a todos e terminou o campeonato na segunda colocação.
Mesmo com o elenco praticamente fechado muita coisa pode mudar até a Copa de 2010. Você ainda tem esperanças de uma possível convocação ou já descartou qualquer possibilidade?
Quando passei por fases maravilhosas na carreira e jogando aí no Brasil, o meu nome era até cogitado, mas nunca foi chamado. Então não seria agora que seria convocado, ainda mais tão próximo da Copa do Mundo. Acredito que pelo menos 90% do grupo está fechado praticamente. Mas isso não quer dizer que não pense em Seleção, pois um atleta sempre deve pensar em chegar lá.
Qual o defensor mais complicado que você já enfrentou?
Foi o Edu Dracena, que de adversário passou a ser companheiro no período que esteve no Fenerbahçe. É um zagueiro seguro, firme e além de tudo muito técnico. Isso complica para o atacante.
Conte-nos um pouco da região de Istanbul em que você mora. O que a cidade oferece de opções de lazer?
Moro no lado asiático. A maioria da população mora aqui e trabalha no lado europeu, onde aliás a opção para o lazer é maior. Quando tem folga costumo sair com o Lugano, Fábio Bilica, Vederson…nossas famílias estão sempre juntas quando pode e isso ajuda a diminuir a saudade do Brasil. Vamos ao boliche, kart, shopping e restaurante.
Fotos: http://www.deividgol.com.br


