A Bota de Ouro e suas controvérsias durante a história

Por Ian Rafael

Nenhum prêmio que indique melhor jogador será aceito por todos. O Fifa World Player of the World é geralmente criticado por falta de grandes jogadores que fizeram seu papel por equipes não tão prestigiadas, foram até campeões, mas no final da temporada não receberam tal honraria, ou pela evidente falta de jogadores que atuam fora da Europa. O da France Football, que às vezes vai de encontro e outras vezes acompanha o prêmio da entidade máxima do futebol, também tem seus poréns, mas ainda assim é mais usado e preferido por quem acompanha realmente o futebol europeu.

Mas com gols deveria ser diferente não é? Afinal, quem faz mais gols, deveria receber o prêmio, fim. É muito complicado dar notas e analisar a partida de um goleiro em comparação a um atacante, mas em relação aos gols, não deveria ser tão difícil. Porém, a história da Bota de Ouro, ou Golden Boot no seu original, revela histórias interessantes sobre a entrega do prêmio e até algumas considerações no mínimo diferentes em relação ao coeficiente utilizado, que é muito decisivo ao final da contagem.

A iniciativa de premiar o maior goleador do Velho Continente partiu da revista francesa L’Équipe. Na temporada 1967-68, o maior jogador “português” de futebol, Eusébio, que é moçambicano de nascença, marcou 42 gols na Liga Portuguesa pelo Benfica, e foi o primeiro agraciado. Até a temporada 90-91 não houve nenhuma reclamação ou problema em relação à entrega do prêmio. Gerd Muller duas vezes (69/70 e 71/72) ambos pelo Bayern, Ian Rush, na temporada 83/84 com 32 gols pelo Liverpool, Van Basten em 85/86 pelo Ajax marcando 37 gols e por fim, Stoichkov pelo CSKA Sofia da Bulgária com 38 gols, foram alguns dos vencedores. Até esse ano não havia distinção entre as ligas. Quem marcasse mais gols era o vencedor. Se o cara jogasse na Estônia ou Espanha, País de Gales ou Itália não importava. A “dificuldade” era deixada de lado.

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Totti faturou o prêmio na temporada de 06/07

A premiação passou por um hiato entre 1990 e 1996, devido a um problema com relação à entrega do prêmio em 90/91. Pancev, atacante do Estrela Vermelha, Iugoslávia até aquela época, computou 34 gols. Mas a Federação Cipriota alegou que um jogador de seu campeonato teria realizado 40 gols. Mas oficialmente só 19 gols foram marcados pelos artilheiros. A confusão só foi desfeita em 2006, quando Pancev enfim recebeu o seu merecido prêmio. Essa confusão afastou a L’Équipe durante o período citado, apesar da Adidas ter continuado a oferecer um prêmio aos vencedores nas temporadas. Ally McCoist provavelmente ficou muito irritado com a situação, pois na duas primeiras temporadas em que o prêmio deixou de ser entregue, ele conseguiu marcar 34 gols pelo Rangers.

Em 1996, a ESM, European Sports Magazine, um grupo de revistas dedicadas ao esporte na Europa, decidiu um critério para evitar que jogadores em ligas menos prestigiadas ganhassem o prêmio com mais facilidade, devido à força ou a falta dela nas ligas europeias. Com isso o valor de ligas como a inglesa, italiana e espanhola começou a pesar 2. A grega, holandesa e portuguesa, 1.5. Já as com menos condições financeiras e esportivas, 1. Entre elas a húngara, sueca e romena.

O impacto já foi visto na primeira temporada em que o coeficiente foi utilizado. Tony Bird, jogando pelo Barry Town de País de Gales marcou 42 gols, mas não levou o prêmio. Sorte de Ronaldo, que atuando pelo Barça garantiu o prêmio com seus 34 gols. Jardel vencedor em 98/99 e 01/02 foi o maior artilheiro europeu somente na primeira temporada citada. Com 36 e 42 respectivamente, incrivelmente na temporada 01/02 ele foi ultrapassado por Marc Lloyd, do Bangor City, novamente de País de Gales, que marcou incríveis 47 gols. Mas Jardel, o maior artilheiro brasileiro também na Champions League, não ganhou o prêmio em 99/00, quando teve menos pontos do que Kevin Phillips, do Sunderland/ING.

Após isso não houveram mais vitórias de brasileiros. Já o uruguaio Forlán e o francês Henry, conquistaram o mesmo feito que Muller, Eusébio e Jardel, faturando duas vezes o prêmio para o artilheiro máximo no futebol mais disputado do mundo. A Itália com Toni e Totti faturou duas vezes também e Portugal desempatou a disputa com a Holanda, devido a Cristiano Ronaldo. Nossos hermanos só possuem um título. Nada de Maradona, Batistuta ou Crespo. Yazalde foi quem venceu, em 73/74, com 46 gols pelo Sporting de Lisboa.

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Mais de 40 anos depois da conquista de Eusébio, Portugal voltou a ganhar o prêmio, agora com Cristiano Ronaldo.

Poderíamos ter mais 1 conquista, mas Afonso Alves e Eduardo da Silva, na temporada de 06/07, com seus 34 gols, não receberam o prêmio por jogarem na Holanda e Croácia, que tem pesos menores que a Itália de Totti, que marcou 30 gols e além de ser o capocannoniere, recebeu a honraria de artilheiro europeu.

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