Hafia Football Club – A decadência de um clube em Guiné que virou tema de livro
Por Thomas Renan
Localizada na África Ocidental, a Guiné-Conacri se declarou independente no final de 1968, deixando de ser colônia francesa. No entanto, o que parecia ser a liberdade do povo, se transformou em uma ditadura interna. Após a eleição de Sékou Touré, o país se deparou com um regime de partido único, sem tolerância quanto a opinião pessoal e política, e de cunho socialista. Apesar da morte de Touré em 1984, pouco coisa se alterou no quadro político nacional. Neste contexto utópico de nacional e independência que o povo guineano conviveu, surgiu na capital e cidade mais populosa Conacri, uma grande entidade esportiva denominada Conacri II.
O nome semelhante com o da capital de Guiné durou até 1971, mas antes disso, o clube já dava mostras do poderio que possuia no cenário futebolístico guineano. Com o tri-campeonato de 66 até 68, a equipe disputava a hegemonia nacional com o Conacri I, que também havia conquistado três títulos desde o início dos campeonatos oficiais no país. Com a mudança de nome, não só conquistou a hegemonia nacional, como marcou sua história em gramados continentais.
Passando a se chamar Hafia Football Club, o clube angariou uma sequência impressionante de 9 títulos nacionais consecutivos, em uma trajetória que iniciou em 1971, e perdurou até 1979. Neste meio tempo, o clube ganhou notoriedade em todo o continente africano, principalmente após as ótimas campanhas na Liga dos Campeões da África. Em 1972, o primeiro triunfo continental, que teve pela frente na caminhada vitoriosa adversários como ASFAN (Níger), Canon Yaoundé (Camarões), Djoliba AC (Mali), Mazembe (Zaire), até a grande final em que o Hafia venceu por duas vezes o Simba, de Uganda, conquistando o seu primeiro título em competições além do cenário nacional. Em 1975, o segundo título da Liga dos Campeões, se deparou com adversários importantes como Vita Club (Congo) e Enugu, da Nigéria, que não foi páreo para os guineanos na final, perdendo as duas partidas do confronto. Já em 1977, para chegar ao tri-campeonato continental, o Hafia encontrou maiores dificuldades do que nas edições anteriores. Nas quartas-de-final por exemplo, a equipe chegou a perder para o Water Corporation, da Nigéria, por 4-2 na primeira partida, sendo obrigado a conquistar uma excelente recuperação de 3-0 na partida final. Na decisão, também acabou sendo derrotado no primeiro confronto, mas venceu o Hearts of Oak, de Gana, garantindo o tri-campeonato da competição. Após 1977, o Hafia Football Club acabou sendo esquecido no cenário africano. Embora tenha chego na decisão um ano depois, nas quatro edições que ainda disputou da Liga dos Campeões o máximo que alcançou foi as quartas-de-final.
Que pese as conquistas nacionais de 82, 83 e 85, o clube acabou se deteriorando no país. O crescimento de clubes como Horoya AC e Fello Star, ofuscaram o brilho do maior vencedor do país com 15 títulos domésticos. A falta de condições financeiras, as pobres safras de reveleções do clube, que já foi responsável por despontar nomes como Soulegmane Cherif, Papa Camara, Bengally Sylla, Abdoulaye Keita e Petit Sory, foram fatores determinantes para que o clube deixasse de ser destaque no âmbito futebolístico. Em 2006, o Hafia também se deparou com problemas políticos. Aboubacar Sampil, conhecido no país por seus atos ilíticos, acabou tentando de forma desesperada um golpe para tomar a presidência do clube de Lansana Bea Diallo, o que não acabou acontecendo, principalmente após a intervenção da Federação Guineense de Futebol.
Atualmente, o clube vem amargando posições intermediárias no campeonato nacional. Em 08/09, terminou com um modesto sexto lugar, a 22 pontos do primeiro colocado e campeão Fello Star, comprovando a quase extinção do clube da capital. O exemplo da equipe de Conacri foi tão evidente nas questões políticas, que foi tema do livro escrito por CONDE Cheikh Fantamady, com o nome de Sport et politique en Afrique. Le Hafia Football-Club de Guinée, tratando do futebol aliado aos temas políticos do continente africano.


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