Horseed FC – O início da guerra civil, o fim de uma hegemonia
Por Thomas Renan
Longe do glamour que os gramados europeus oferecem, nem ao menos com perspectivas de conquistar a eficiência que o futebol sulamericano demonstra em revelar talentos, a Somália é uma pequena parte escondida no continente que está a menos de um ano de sediar o evento de seleções mais importante do planeta.
Assolada pela influência estrangeira no século passado, pelos inúmeros conflitos internos que excluem a autoridade governamental, além da fome e da precária condição de vida que faz com que o povo somaliano conviva de forma desumana, o futebol, assim como em outras regiões, acaba sendo um refúgio diante tantas dificuldades. No entanto, apesar da paixão do povo local pelo esporte, a prática custou a chegar nas comunidades indígenas, já que inicialmente, ainda no século XIX, o futebol era exclusivo dos povos colonizadores, no caso dos britânicos ao norte, e os italianos no sul.
Com o visível crescimento da vontade e da curiosidade da população pelo ainda desconhecido jogo, o esporte foi se alastrando pelo país, tomando importantes cidades como Kismayo, Jamame, Merca, Mogadishu, além de outros vilarejos. Em 1940, finalmente apareceu os primeiros times compostos por moradores oriundos da região, que mesmo sem competições oficiais e organização, já disputavam suas partidas, principalmente contra as equipes formadas pelos colonizadores.
Em um contexto marcado pelas lutas de independência e unificação, no início dos anos 60 surgiu diversos clubes no país, formados principalmente por militares e policiais, o que alguns anos depois resultaria em uma fusão que originara o clube mais vitorioso da Somália até então: Horseed Football Club, que acabou se aproveitando do momento vivido pelo esporte no país, envolvendo desde as primeiras participações da seleção em competições continentais, até a falta de apoio com que o restante dos clubes se deparavam.
Em 1967, na primeira edição da Somalia League, correspondente a primeira divisão no país, o Somali Police, time formado pela polícia local garantiu o título, o que não aconteceu no ano seguinte, quando a competição foi para o Hoga, também da capital, mas que era formado por militares. A partir daí, com a revolução militar de 1969, o futebol no país teve outro rumo, inclusive com a reformulação nos clubes da primeira divisão, além da incorporação de novas competições, entre elas do segundo e terceiro escalão, fazendo com que o esporte trouxesse novos adeptos a prática, principalmente nas escolas locais, que passaram a aderir o futebol em suas atividades diárias.
Com a reformulação estrutural do futebol na Somália, o Horseed Football Club, começou a mostrar em campo o motivo pelo qual era apontado como uma das potências no cenário esportivo nacional desde a sua fundação. Após uma série de três conquistas seguidas de um já extinto clube chamado Lavori Publici, o Horseed garantiu uma sequência jamais vista no país que perdurou de 1972, até 1980, interrompida apenas em 1975 com o título do Mogadiscio Municipality. No entanto, o desempenho que acompanhava o crescimento futebolístico no país, acabou se deteriorando com as intermináveis guerras civis responsáveis pela fragmentação do país em regiões dominadas pelos conflitos. O clima de tensão que assustava o país, se aliou com o exôdo de jogadores somalianos que acabavam embarcando para outras regiões em busca do reconhecimento no esporte. Sem poder de reação, apesar do tri-campeonato da Somalia Cup (82,83 e 87), o Horseed, em especial, perdeu o apoio militar e consequentemente a hegemonia esportiva no país.
O problema, que não apenas atingiu o maior vencedor do país, se alastrou para todos os clubes e a entidade que controla o futebol no país. Recentemente, em 2004, o ex-presidente da Federação de Futebol da Somália, Farah Addo, foi destituído do cargo pela FIFA após ser acusado de corrupção, causando ainda mais prejuízo ao esporte no país. Atualmente, os campeonatos ainda existem, embora a credibilidade e a organização sejam precárias ocasionando o afastamento de um povo apaixonado, mas descrentes quanto as perspectivas de melhoras do esporte na Somália.
Foto: Kubadda
