O primeiro africano a integrar a seleção da Rússia
Por Victor Domingos
Do futebol amador de Camarões ele tentou ingressar em uma universidade Rússia, sendo rejeitado por notas baixas e vício em drogas. Do futebol com os amigos para o Spartak Moscow, clube que dominava o futebol local e depois para as seleções russa e camaronesas. Não é um roteiro de filme, mas sim a história de Jerry-Christian Tchuissé, o primeiro africano a integrar a seleção russa de futebol.
Nascido na capital camaronesa Douala em 13/01/75, Tchuissé ingressou no futebol amador local de 1993 a 1996 atuando por Bongongui Douala e Léopard Douala. Em 1997, o lateral-direito buscou uma guinada em sua vida. Deixou o futebol e foi tentar a sorte numa universidade russa em Krasnodar, no sudoeste russo. Rejeitado por notas baixas e vício em drogas, o camaronês jogava bola com alguns amigos quando foi descoberto por um olheiro do amador Neftyannik de Goryachy Klyuch, clube de cidade próxima a Krasnodar e com o qual Tchuissé se vinculou.
Ainda em 1997, Tchuissé chamou a atenção de todos em um torneio amador graças a um ótimo futebol e assinou com o Chernomorets Novorossiysk, da primeira divisão russa, para o ano de 1998. Após as experiências no futebol amador, era o primeiro contrato profissional do lateral, aos 23 anos.
Lateral de contenção, Tchuissé mostrava um futebol em ótimo nível, surpreendendo a todas as expectativas. Mesmo com uma grave lesão superada, o jogador continuou a ter boas atuações e foi contratado pelo Spartak Moscou em 2000, potência russa da época e que desde 1992, com o fim da URSS, só perdera um dos 8 campeonatos russos disputados, em 1995.
Tchuissé não se intimidou com o fato de atuar no maior clube do país. Continuava atuando bem mesmo com uma pequena e violenta parcela da torcida com ideologias racistas. O jogador participou da campanha da Champions League incluindo um cruzamento para o gol do brasileiro Robson na goleada sobre 4×1 contra o Arsenal em jogo válido pela 2ª fase de grupos quando a equipe russa foi eliminada. Também em 2000, Tchuissé adquiriu cidadania russa. Jamais tendo atuado por Camarões, o jogador era cotado para fazer parte da seleção russa.
Em 2001, Tchuissé foi convocado pela seleção russa pela primeira vez, tornando-se o primeiro africano a integrar a seleção russa. Não era para uma partida oficial mas sim para amistosos com clubes gregos como forma de treinamento, o que ainda possibilitava que o jogador estivesse disponível para a seleção de Camarões. Em abril do mesmo ano, o lateral foi chamado pela seleção de seu país natal para jogos válidos pelas eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002. Após ficar somente no banco contra Líbia, contra Angola, em 6 de maio, o lateral atuou os 90 minutos da partida tornando-se então indisponível para a seleção comandada por Oleg Romantsev. O jogador ainda entrou na partida contra Zâmbia para depois ser preterido por outros jogadores da mesma posição e somente ser lembrado anos depois.
Tchuissé perdia espaço no clube e vivia situações complicadas em sua vida extra-campo. Com medo de agressões de cunho racista, o jogador declarou a um jornal que se sentia preso e acuado na cidade, saindo apenas para locais próximos e conhecidos. Com problemas internos, o jogador foi vendido a seu primeiro clube profissional, voltando a jogar pelo Chernomorets. Titular absoluto, o jogador fez parte da campanha do rebaixamento da equipe, mas recebeu uma proposta do FC Moscow, permanecendo na primeira divisão local.
O jogador permaneceu no clube até 2006. Foi pelo FC Moscow que Tchuissé marcou seus dois únicos gols como profissional. O jogador também foi reconvocado por Camarões neste período, atuando em um amistoso em 2005, sua terceira e última partida pela seleção. Em 2007, Tchuissé assinou com o Terek Grozny atuando em 38 partidas pela segunda divisão e ajudando a equipe a conquistar o acesso à primeira divisão. Sem renovar com o clube, o jogador assinou com o Vityaz Podolsk, recém promovido à segunda divisão nacional. Ajudando a equipe a permanecer em sua nova divisão, a grave crise financeira com que o clube passava impediu que o contrato de Tchuissé fosse renovado.
Tchuissé ainda disputou uma partida contra a seleção russa em 2006 jogando por um combinado de africanos e sulamericanos em uma partida contra o racismo. Ainda pelo Vityaz, o jogador respondeu com gestos as ofensas racistas da torcida do Torpedo Moscou e foi expulso. Com o término de seu contrato, o camaronês não se disse motivado a continuar jogando futebol no país em que mora há mais de 10 anos por ver que não há progresso na tentativa de combater o rascismo e seus insultos no país, fatos que fizeram outros jogadores como o ganês Laryea Kingston desistirem de tentar continuar jogando no país.

